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Três modos de caracterizar entidades abstratas:

  • É algo que não está no espaço-tempo (a vermelhidão é exemplificada nos objetos vemelhos, mas ela mesmo não está neles).
  • É algo que só é apreendido após um processo de abstração (vemos uma bola vermelha, mas não a esfericidade e a vermelhidão)
  • É algo que pode ocupar a mesma região espço-temporal que outras entidades abstratas (a esfericidade e a vermelhidão de uma bola vermelha ocupam exatamente a mesma região espaço-temporal)

Richard Cartwright (Identity and Substitutivity,1971, in Identity and Individuation) escreve que “[t]o show that two things — propositions or any other tings — really are two, nothing will suffice short of mentioning something true of one of them that is not true of the other.”

Cartwright nega que possam existir coisas indiscerníveis mas que são duas. Parece então que a cardinalidade está intrinsecamente ligada à identidade. Só é possível atribuir um cardinal a uma coleção quando é possível distinguir cada uma delas das demais, isto é, quando não forem idênticas. A mecânica quântica apresentará um contraexemplo?

Temos uma noção de objeto físico, que nos é dada pelo modo de agir e falar no mundo. É impossível a rejeitar, pois nós de fato guiamos a nossaa ação e linguagem por ela, isto é, toda possível rejeição já é sempre posterior, dependente da sua aceitação prévia. Assim, todo possível objeto da ciência deverá mediar a sua pretensão a ‘objetividade’ frente ao objeto do senso comum. Sendo primitivo e fundamental, o objeto do senso comum fornece o critério, o padrão relativamente ao qual todo candidato à objetividade deve ser medido. Daí pendão pragmatista, a objetividade do objetos (da ciência) depende não princípios a priori fixos e imutáveis, necessaria e universalmente válidos, mas sim é constituído e é relativo a um determinado modo de vida, a um determinado agir e falar. A concepção de objeto do senso comum fixa um certo quadro de expectativas, o modo como esperamos que os fenômenos se comportem. Sempre que esse quadro de expectativas é preenchido, estamos justificados em estender a ontologia do senso comum ao domínio de fenômenos em questão. Daí o pendão transcendental da abordagem, ela busca as condições de possibilidade de um discurso sobre objetos em geral, os limites a que toda atividade experimental deve sujeitar-se para ser considerada experiências sobre objetos.

“The task of ontology is not only to describe the domain of a theory, but to offer an explanatory description whose basic terms we can ‘agentively understand’.” (Seibt. Quanta, Tropes or Processes)

“Were ‘exists’ ambiguous, there would be pairs of entities which seem to exist in different ways and whose seeming ontological difference could not equally plausibly be explained by differences in theris putative properties.” (Michael Levin. Realisms. Synthese 85:115-138, 1990)

Se queremos mostrar que há dois modos de existência temos que mostrar entidades que são diferentes embora essa diferença não possa ser atribuída às suas propriedades. Logicamente isso significaria que teríamos uma linguagem bissortida em que os quantificadores que se aplicam a um tipo de objetos não se aplicam a outro. O problema é encontrar dois tipos diferentes de quantificação que justifiquem o discurso sobre dois modos de existência diferentes.

“Our best metaphysical theories of objects, kinds, and properties may leave us with some indeterminacy. Science tells us that certain kinds of entities are real, without giving us precise ways of distinguishing them or their parts. There is little reason to think that such precision is forthcoming.” (Prinz. “Vagueness, Language, and Ontology”, Ejap)

“Vague objects are most happily defined as ones that have borderline parts. For example, there might exist grains of sand that are borderline parts of the Sahara desert. This may be attributable to an ontological uncertainty of the relation, x is a part of y. Borderline parts are the most likely source of vague identities. Two objects may be vaguely identical just in case they differ in their borderline parts. Objects can also be vague in another sense: they can be borderline cases of vague properties. A neonate may be a borderline instance of the property person even if it lacks borderline parts. Some objects may be vague in both senses. For example, an object that is a borderline instance of being a mountain may also have borderline parts around its periphery.” (Prinz. “Vagueness, Language, and Ontology”, Ejap)

Como se vê, a “vaguidade quântica” não costuma entrar nas taxonomias da vaguidade, O problema: defender de maneira sensata a sua inclusão entre as categorias de objetos vagos mostrando que (a) é sensato considerar os quanta como objetos vagos e (b) o seu tipo de vaguidade não se reduz a nenhum dos tipos tradicionais de vaguidade.

Em Vagueness, Logic and Ontology (The Dialogue. Yearbooks for Philosophical Hermeneutics 1 (2001), 135–154) Vazi enumera alguns motivos para recusar uma abordagem ontologizante da vaguidade, considerando que a vaguidade seja modelada via lógica fuzzy:

(i) A imprecisão dos conceitos vagos desfaz-se em uma infinidade de graus precisos de pertencimento. Em outras palavras, se é impreciso que um indivíduo a possui a propriedade P, então que sentido teria modelar essa relação dizendo que a possui P precisamente no grau μ, isto é, se já temos dúvidas se Pa ou ~Pa, acaso estaremos certos de que Pa precisamente no grau μ?

(ii) Esta abordagem supõe que pontos precisos em que passa dos casos dúbios aos casos certeiros, isto é, que supõe que há um ponto preciso em que deixa de ser verdadeiro que Pa para se tornar apenas parcialmente verdadeiro que Pa. Se não há um fronteira precisa separando os objetos que são P dos objetos que não são P, haverá uma fronteira precisa separando os objetos que são P em grau 1 dos objetos que são P em grau μ.

Parece que para alguns filósofos ser é ser apontado, ou seja, só existe aquilo para o qual em princípio nós podemos apontar. No caso da física quântica temos uma situação interessante:

“L’individu de la mécanique quantique c’est bien ce vecteur d’état-ci et non pas ce vecteur d’état- (dans un certain espace de Hilbert), mais il se trouve que l’index qui a pour fonction de pointer occupe un autre espace que ce qu’il pointe” (Bitbol. Esquisses, Form e Totalité, p.75)

Segundo Bitbol são a individualidade e a permanência as caraceterísticas fundamentais da coisa. Algo pode ser considerado uma coisa somente se for individualizável e continue ao longo do tempo.

A função de onda satisfaz estes dois critérios, logo seria lícito atribuir-lhe textura ontológica