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“Le journal porra-t-il jamais remplacer le curé?” (Stendhal. Le Rouge et le Noir)
Era a pergunta que alguém poderia colocar-se no século XIX. Hoje só teríamos a responder: pois já não o fez? O jornal é o padre do homem contemporâneo. Antes era do bom-tom ir à missa, nenhuma pessoa respeitável podia evitar de ir à missa aos domingos, ensinava-se nas escolas à escutar e respeitar os padres, e todos obrigavam-se a ouvir, ou ao menos fingir ouvir o que eles tinham a dizer. E não é assim hoje com o jornal? Não somos instados desde a escola a ver telejornais, ler os diários e as revistas semanais? Não é de bom-tom fazê-lo, ou menos fingir que o faz? Não é tarefa do homem globalizado estar atento às notícias, saber as ninharias das eleições ianques e velhacaria da política brasileira? Não é um considerado um crime de ignorância uma pessoa não saber o nome da meia dúzia de políticos de noticiário, conhecer o novíssimo esquema de corrupção, a mais recente brutalidade do crime? Não é dos editorais, colunas de opinião e blogs que as pessoas tiram a sua opinião sobre tudo, do aquecimento global à ditadura bolchevique, da corrupção à violência urbana? E quem não sabe nada disso, e depreza jornais e todo o resto, não é considerada uma pessoa rude, desinformada, inculta?
Terrível inversão! A ignorância completa de tudo o que é importante virou agora sinal de cultura.
Os padres tiveram um papel civilizador, e também os jornais o tiveram. Deu-se um tempo em que foi preciso nos livrarmos dos padres, espero ver o fim dos jornais.
Uso protetores auriculares para proteger meus tímpanos e têmpera da má-educação dos vizinhos. Como socialmente impera a barbárie e o brutalidade mais grotesca, resta ao indivíduo minimamente educado e consciente de si tornar-se um eremita. Educar os brutos é obra para missionários, acho mais respeitoso deixar os porcos chafurdando na lama, seu lugar natural, que impor-lhes a educação e civilizá-los pela força. Na antigüidade a força da civilização se impunha por si mesma, os povos atrasados naturalmente reconheciam a superioridade dos povos superiores e não tinham receio em tomar-lhe a cultura. Pois bem, retornando ao ponto, é verdadeiramente incrível o nível de barulho das nossas cidades. Fique-se três ou quatro horas no silêncio, tire-se logo em seguido os protetores e abra-se a janela. O ruído que se ouve entáo é nauseante. A sensação de mal-estar é patente, claramente sensível. O lixo sonoro, visual, olfativo, gustativo, moral e intelectual que vigora nas nossas cidades é a melhor propaganda para o anarcoprimitivismo.
O amolador passa aos gritos pela rua, lembrando-me que a minha miséria, por mais miserável que seja, é ainda assim incrivelmente confortável. Ele atravessa os dias sob o império morboso do sol, gastando a voz e as pernas perambulando pelas ruas, já eu fico em casa, ao abrigo do sol, sentado e quieto diante do livros e do computador. Mas a degenerescência moral instigada pela miséria que nos aflige a ambos será diferente para cada um?
O maldito Erlkönig não descansa, não consigo fazer nada sem que ele não me venha aos ouvidos. Por que Schubert tinha que ser um compositor tão bom? Nem sei quem escreveu o poema, mas a música que Schubert lhe adjuntou é tão sedutora e fatal quanto o tal Erlkönig de que fala. Sei mutig!
“Mancebo sem dinheiro, bom barrete,
Medíocre o vestido, bom sapato,
Meias velhas, calção de esfola-gato,
Cabelo penteado, bom topete.Presumir de dançar, cantar falsete,
Jogo de fidalguia, bom barato.
Tirar falsídia ao Moço do seu trato
Furtar carne à ama, que promete.A putinha aldeã achada em feira,
Eterno murmurar de alheias famas,
Soneto infame, sátira elegante…Cartinhas de trocado para a Freira,
Comer boi, ser Quixote com as Damas,
Pouco estudo, isto é ser estudante“ (Gregório de Matos. Soneto)
Infelicidade minha, uma malta de estudantes habita a casa da frente. Gente insuportável. Fizeram da casa um cortiço, transformaram todo canto em habitáculo. Só na frente da casa há quatro deles. Mal de ouvidos , mal de educação, mal de gosto. Perceba-se, é o próprio reino da maldade. Se não chega a tanto é ao menos um posto avançado, maneado pelos seus mais diligentes súditos.
Somando-se a maldição estudantesca da frente ao cortiço sambista de trás, o caipira psicopata da furadeira do lado, o playboy de três casa à esquerda, a família cocainômana de três casas à direita, a kombi de som dos produtos de limpeza catarina, a moto de som do amolador, o avião de som do circo, o caminhão de som do abacaxi, o andarilho de som do ferro-velho-panela-velha, os carros de som dos supermercados, das associações de moradores, dos sindicatos, dos idiotas cujos aparelhos de som do carro são mais caros do que os próprios carros, e fechando a conta com os caminhões musicais de gás, não seria despropositado afirmar que estou no inferno. Em vida, devo ter sido um desses celerados surdos que infernizam os outros com a sua música. Morto, pago o pecado rodeado de demônios musicais. O Brasil é o inferno, não há mais dúvida.
Confesso que ando lendo Lovecraft. Confesso ainda que reconheço nele qualidades literárias. Ele sabe formidavelmente emular relatos pessoais e jornalísticos. Mas a repetição extrema de qualidades menores não faz grande literatura. O inominável Azathoth e a sua gangue ciclópica já me causam repulsas, não de pavor, mas de familiaridade. Como se fosse um daqueles amigos dos velhos tempos que só consegue falar sobre o preço da gasolina e o jornal nacional.
Par contre, Zola pode repetir-se à vontade que continua o príncipe dos escritores. Engoli em duas tardes o Ventre de Paris. Regalia saborosíssima, ricamente colorida e de gosto forte. Só os cegos e fracos de estômago torcem o nariz quando um bom Zola lhes é apresentado.
Dos recônditos arcanos de sua alma de zeros e uns o GAIM oferece-me vislumbres do mistério do “erro desconhecido”. Se eu não soubesse que a mais dolorosa parte da paixão dos programadores é justamente escrever mensagens de erros para os usuários estúpidos, eu seria capaz de me irritar com o mistério do “erro desconhecido”. Com o GAIM no êxtase místico, volto ao aMSN. Nada contra o aMSN, a sua feiúra é-me mesmo simpática, o problema é que o tcl/tk traz-me à mente lembranças que deveriam ficar esquecidas.
Uma troca de olhares, castos e fugazes, com uma bela moça de pele branquinha, corpo cheinho, e uma casta roupinha em tons pastéis e róseos. Senti-me num romance do século XIX. Ai!, saudades de um tempo que nunca vivi!
